Nós todos aqui escrevemos. Alguns, como profissão. Outros, porque... Por quê? Por que você escreve? Qual o papel da escrita na sua vida?
PS - Não valem respostas do tipo "para me realizar", he he
“Digamos que escrevo para tentar separar o mundo-como-tal do mundo-como-idéia. Claro? Bem, talvez tenha outras motivações menos conscientes, mas não tenho melhor justificativa para exercer um ofício tão perigoso… Imaginar-se autor parece-me tamanha petulância que desde que me entendo tento fingir que sirvo para alguma coisa!”
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Adélia Prado
“Boa pergunta. É necessário que eu escreva, acho que é uma necessidade divina de mostrar a Sua face, o espírito quer ser adorado, ele quer ser visto. Deus precisa fatalmente de mostrar a Sua face e a arte é uma mediação para a divindade. Então, neste caso, tenho que ser dócil a este desejo divino. Não obedecer a isto é pecar, é um pecado capital, eu não sou dona disto, não posso falar: não vou escrever mais, isto seria o máximo do orgulho, então eu tenho que escrever.”
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Millor Fernandes
“Escrevo porque escrevo, se me pagassem eu só falava
Pergunta feita a todos os escritores, desde o princípio dos tempos, antes mesmo da invenção da escrita: Por que você escreve? E eu respondo.
Imitando o dito popular dipsomaníaco: “Bebo porque é líquido, se fosse sólido eu comia” atribuído a todo mundo porque não é de ninguém (provavelmente foi dito pelo primeiro bêbado), eu esclareço: “Escrevo porque escrevo, se me pagassem eu só falava”.
Nunca procurei, pleiteei, um emprego na vida. Quando vi me pagavam pelo que eu batia à maquina (é, já havia a máquina datilográfica, sucessora gloriosa da caneta-tinteiro, substituta da caneta, do tinteiro e do mata-borrão!!! Por pouco não peguei a pena de ganso) e muito até.
Dava pra pagar a pensão, pelos versinhos gloriosos das GAROTAS do Alceu, quem quiser saber o que é, ou era, isso, que pesquise.
Ia escrevendo, e o que saia, vendia. Ás vezes já maluco, psicodélico, contestatório, surrealista. Tudo, naturalmente, sem saber.”
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Clarice Lispector
“Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando…”
“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”
“É preciso coragem. Uma coragem danada. Muita coragem é o que eu preciso. Sinto-me tão desamparada, preciso tanto de proteção…porque parece que sou portadora de uma coisa muito pesada. Sei lá porque escrevo! Que fatalidade é esta?”
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Hilda Hilst
“Essa bobagem de sexo na velhice não atinge o poeta. Escrevo justamente para não envelhecer. Posso ter 70 ou 80 anos, vou continuar erótica. A imaginação vai assumindo o controle das lembranças e ninguém segura. Sei respeitar a ausência do amado e ainda assim desejá-lo. ‘Desperdicei meu corpo para aliviar minha alma’, acho que escutei isso num filme.”
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José Inácio Vieira de Melo
Escrevo para poder continuar vivo, para preencher o imenso deserto do meu ser com os eus que vou inventando. Escrevo porque sofro de uma praga sagrada: a poesia. Escrevo porque se parar de escrever deixo de existir. Escrevo para matar a besta e decifrar o enigma. Escrevo o meu enigma. Escrevo porque é minha oração e meu paradigma. Escrevo para me proteger dos coices desses cavalos. Escrevo para encontrar a salvação no Vale de Josafá, no Vale do Jequitinhonha, em Jericó ou em Maracás. Escrevo porque escrevo. Escrevo porque tenho fome.
Se disser que não sei, você acredita? (risos).
Sempre adorei escrever, bem ou mal, pouco importa, desde criança, nem me lembro a partir de quando.
Uma compulsão? Uma maneira de viver?...
Seria uma forma de acontecer?
Por que escrevo? Porque, além de ser a atividade que faço melhor (e olha que tenho que melhorar muito mais ainda!), é também a que me assegura o pão de cada dia, a sobrevivência. O poema "Ritual", de minha autoria, acrescenta algo mais à questão proposta:
Eu
simplesmente
faço versos
é simples
pego do lápis
a emoção flui
os poros se abrem
em bagas de sangue
o coração me dói
tenho febre
e
súbito
meu outro eu
franco-atirador
que detesta a dor
irrompe de mim
num brado poético
édipo-ético:
eu quero a
minha mãe!
Continuando a tecer a linda colcha que a Renata iniciou:
Ítalo Calvino: (palestra em Nova Iorque, março 1983)
"Pertenço àquela parcela da humanidade — uma minoria em escala planetária, mas, creio, uma maioria neste salão — que passa a maior parte de suas horas úteis num mundo muito especial, um mundo feito de linhas horizontais, onde palavras seguem palavras, uma de cada vez, e cada frase e cada parágrafo ocupa seu lugar estipulado, um mundo talvez muito rico, ainda mais rico que o não-escrito, mas que, de qualquer forma, requer um ajuste especial, a fim de que possamos nos enquadrar nele. Quando passo do mundo escrito a este outro — este que chamamos atualmente de mundo, fundamentado em três dimensões e cinco sentidos, povoado por 4 bilhões de nossos semelhantes —, isso significa para mim repetir a cada vez o momento do meu nascimento, passar de novo por seu trauma, para criar uma realidade inteligível a partir de um conjunto de sensações confusas, para novamente escolher uma estratégia para enfrentar o inesperado sem ser destruído por ele.
[...]
Os poetas e escritores que admiramos criaram em suas obras um mundo que para nós parece o mais significativo, contrapondo-o a um mundo que também para eles carece de significado e perspectiva. Acreditando que seu gesto não era muito diferente do nosso, levantamos nossos olhos da página para sondar a escuridão."
Oi, Antonio! Boa sua resposta. Como, no entanto, citei apenas um pequeno trecho de texto mais longo do Italo Calvino (há alguns outros trechos deste mesmo texto no meu enredosetramas), talvez isso tenha favorecido uma interpretação enganosa do que disse Calvino. Para ele, o mundo era escuridão apenas porque lhe era desconhecido. Escrever seria uma forma de tentar desvendar um pouco esse mundo. Creio que, no conjunto do seu texto, ele não faz apologia da "torre de marfim".
Estive na sua página, gostei. Abraços.
Não sei porque escrevo. Antes de mais nada, é porque sei escrever. E bem. Mas há outra resposta mais utilizada por todos - escrevo para me expressar. Escrevo quando não quero pintar ou desenhar, isto é, quando a imagem não vai dar completude ao que quero transmitir.
Por que me fiz assim,
milhas de quem perto de mim?
Ah... Se não fosse a poesia,
meu único contato,
com este mundo distante,
que jamais consegui alcançar...
Escrevo porque aprendi a ler.
Não sei escrever, aprendi a amar as palavras - não a gramática.
Antes de saber juntar letras, aprendi a amar: pessoas.
Lobato ensinou-me a sonhar.
Nada escrevo sem um profundo sentimento, seja o amor, a revolta, a libido. Sai de dentro.
Um dia, talvez em outra vida, serei um poeta.
Hoje, simplesmente deixo meu coração chorar perante o que leio.
E, entre todos os seres humanos iguaizinhos a mim, amo os poetas,
Que me trazem à pele as emoções que nos são comuns.
Poesia, amor, amizade, luar, saudade, música...
Que privilégio tem o poeta que trsnaforma, magicamente, tudo isso em "palavras"!
Sem amor não há poesia: pode haver exercício gramatical.