Verso e Prosa

Há quem afirme, com veemência: letra de música não é poesia (poema). É letra de música. Não desmerecendo tal forma de arte, dizem, mas a palavra sempre se curva à melodia. E não tem o caráter reflexivo da (boa) poesia - do bom poema, como preferirem.

Há quem discorde, com igual paixão: Chico Buarque não escreveu letras que são obras-primas? E Vinícius de Moraes?

Vinícius, como bem poucos, produziu poemas extraordinários, melodias belíssimas e excelentes letras de músicas. Há flagrantes diferenças entre suas letras de música e seus poemas.

E você, o que acha?

Tags: buarque, chico, de, moraes, música, poesia, vinícius

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Respostas a este tópico

Não importa a que fim o poema se destina.
Todo o poema é música aos olhos de quem o percebe,
do contrário não toca, não diz, é vazio.
É o momento único em que se transforma em poesia.
Sendo assim a recíproca é verdadeira.

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Renata, um poeminha inspirado na sua pergunta:

Poeminha

Música
Palavra cantada
Molhada
De melodia
Poesia
Palavra talhada
Que a nota
Não auxilia

Mariê
Brasília – 18 agosto 2008 – 1h27

Embora, pra mim, muitas letras, muitas músicas são pura poesia...

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O pessoal aqui é bem inteligente. Eu responderia, mas já responderam quase todas as respostas que a minha cabeça respondia para mim.
Mas, em suma, o que me vem é assim: a poesia é musical, pois sua origem é a declamação e aquela história toda, mas sua musicalidade está nas suas palavras mesmo, qualquer um que a ler dará a sua música, pois ele está na própria estrutura, na montagem e na métrica e rima quando existirem.

Claro que se pensarmos em poesia concreta, se pensarmos nas experimentações da poesia marginal (e nos seus rebentos, como Melamed) e na própria arte contemporânea, como Jorge Macchi, que faz uma poesia de coisas e sons, fica tudo mais relativo, mas o pós-modernismo é assim mesmo, mais despreocupado, e, inspirado no que dizia o pessoal da semana da arte moderna, se Einsteins por aí subverteram a ciência, como poderíamos proteger a arte?

Mas poética é uma coisa, poesia é outra.
Enfim, uma coisa é certa, em país nenhum a música (através das letras) teve tanta força literária (e uma referência aos movimentos literários e artísticos - leia-se Tropicália, Pau-Brasil) como no Brasil, o que faz essa pergunta muito mais profunda que a resposta que eu dei inicialmente.

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Este texto me foi enviado pelo Marcílio e acho que vale a pena ser publicado aqui!

Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 16 de agosto de 2008






EU LEIO E VOCÊ CANTA

por Felipe Fortuna



Um modo objetivo de estabelecer a diferença entre "letra de música" e "poema" leva a reconhecer que "poema" é toda composição, quase sempre em versos, que não gera direitos autorais. Imagine-se Caetano Veloso unicamente como autor de Letra Só (2003): decerto auferiria os ganhos irrisórios, praticamente indignos, do excelente poeta Affonso Ávila, que, aos 80 anos, acaba de reunir sua obra poética em Homem ao Termo. Por não ser músico, tampouco seria possível que o poeta mineiro visse a sua obra bipartida num songbook, ao contrário do que aconteceu com o compositor baiano, que teve algumas de suas composições transcritas, em dois volumes, por Almir Chediak. No prefácio a Letra Só, Eucanaã Ferraz comenta o "ato de desarticulação/arranjo" que justifica a aparição da "letra de música" num livro sem partituras: "nesta condição de letra só, contrariando sua natureza de letra em melodia, a palavra passa a viver artificialmente a condição de escrita." Trata-se de uma advertência que tenta precaver o leitor para muitos versos afinal inaceitáveis ao gosto de quem costuma ler poemas. Em "Tempo de Estio", por exemplo, Caetano escreve:

Quero comer

Quero mamar

Quero preguiça

Quero querer

Quero sonhar

Felicidade



É o amor

É o calor

A cor da vida

É o verão

Meu coração

É a cidade.

Obviamente, a linha que vai da existência de direitos autorais à existência de melodia passa pelos territórios do mercado e da música: encontram-se nessa travessia praticamente todos os fenômenos que dizem respeito à canção, distinguindo-a do poema literário. Para tanto, ninguém precisa exibir a desordem conceitual da professora Heloísa Buarque de Holanda quando, no prefácio à antologia Esses Poetas (1998), afirmou que "em caráter irrevogável, a distinção entre a poesia escrita, a cantada e a visual não se sustenta mais como defensável." Revogue-se a autoritária declaração por meio do depoimento de dois poetas e letristas, Antonio Cícero e Arnaldo Antunes. Em artigo para a Folha de S. Paulo (16.06.2007), o poeta de Guardar (1996) escreveu que "o poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural. (...) a letra se realiza na canção, mas a canção só se realiza plenamente quando interpretada, isto é, quando cantada e escutada." A conclusão não poderia ser outra: "um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. (...) Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria." Por sua vez, o ex-líder dos Titãs, em entrevista à revista Cult, reconhece que "letra de música é indissociável da melodia. Canção é canção", mas lamenta a persistência de uma desvalorização desta em relação ao poema escrito.

Ora, o mercado indica que a desvalorização ocorre, justamente, na edição e distribuição do poema e, ainda mais radicalmente, na divulgação e no consumo do poema. Quanto ao status superior do poema em relação à canção, somente ocorre pela insistência, muito peculiarmente brasileira, em aproximar códigos diferentes. Em países de vasta e consolidada tradição literária, é impossível que o cancioneiro seja incluído no cânone dos poemas: não se imprimem as letras de Paul McCartney ao lado dos poemas de Philip Larkin – ainda que o poeta tenha escrito "

As relações sexuais começaram

em mil novecentos e sessenta e três

(o que chegou tarde para mim) –

entre o fim da censura a Chatterley

e o primeiro LP dos Beatles.

Parte da confusão existente quando se pretende distinguir "letra de música" e "poema" ocorre, ironicamente, pela imprecisão do termo "poesia". Até mesmo os nossos dois dicionários básicos, o Aurélio e o Houaiss, definem "poesia" como "composição poética de pequena extensão". O adjetivo "poética" é redundante em ambos os casos, uma vez que se vê definido como "que tem ou encerra poesia". Nesse sentido, os 96 versos de "A Máquina do Mundo", por sua extensão, não seriam "poesia", ainda que o poema de Carlos Drummond de Andrade seja um ponto alto da meditação filosófica em literatura, na tradição camoniana. Lamentavelmente, muitos se põem a perguntar, por equívoco, se "letra de música" é "poesia" (por que não seria?), quando pretendem, de fato, questionar a distinção entre "letra de música" e "poema". Uma ironia suplementar diz respeito à "letra de música": o fato de que esta é sempre uma composição de pequena extensão (a ocupar, quando impressa em livro, apenas uma página) e, portanto, confundindo-a uma vez mais com a definição tradicional de "poesia".

A oralidade intrínseca à "letra de música" produz, algumas vezes, não apenas versos memorizáveis, mas equívocos que dificilmente se encontram no "poema". Almir Chediak explica que "quando todos pensam que o final da letra de "Trio Elétrico" [de Caeteno Veloso] é ' o trio elétrico o sol rompeu no meio di, no meio-dia' ou 'o trio elétrico só rompeu' (...), na realidade ele termina por 'o trio eletro-sol rompeu no meio di, no meio-dia'. Ouvindo o disco fica quase impossível entender a maneira correta (...)." Quem de fato produz ou produziu tanto a "letra de música" quanto o "poema" – a exemplo de Vinicius de Moraes, Waly Salomão e dos citados Arnaldo Antunes e Antonio Cícero – sabe que a distinção entre os termos não é nem acadêmica, nem inoportuna, nem desnecessária: representa, para surpresa dos amadores, uma estratégia para o consumo, um posicionamento intelectual, um depoimento sobre a obra.

A insistência em considerar a "letra de música" um objeto a ser cogitado no cânone literário deveria, por outro lado, dar início à revisão imediata das antologias de poemas no Brasil: todas exibiriam, sempre que possível, as canções que se notabilizaram antes mesmo de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) com sua "Ó Abre Alas". Caso contrário, essas antologias precisariam justificar por que a sofisticação das canções e sua aspiração a serem poemas literários coincidem com o período a partir da Bossa Nova, quando a modernidade da música popular brasileira se projetou no país marcado pelos arcaísmos, pela escassa educação e pelos baixíssimos índices de leitura.

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Betão!

Vê se me ajuda aí, porque Dona Renata disse que vai ficar de mal comigo por causa do meu desaparecimento :)) E tinha aquela música cantada pela Claudette Soares... "quem viu Helô? fugiu!" Já te mandei essa?
Em compensação, trouxe você pra cá. Isso já é motivo de perdão pra qualquer sumiço meu, hohoho. E, na verdade, eu não sumi, só tô cantando mais lá no LN e no Album Covers with Rio de Janeiro Views :)

Letra de música ou poema? Virge! Ontem mesmo eu estava escutando o Chico cantar "As Vitrines":

na galeria
cada clarão
é como um dia
depois de outro dia
abrindo um salão
passas em exposição
passas sem ver teu vigia
catando a poesia
que entornas no chão


Beijos.

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Renata: Eu ainda discordo (não é ótimo?). Cê pegou logo o Antônio Cícero, eu tenho lido o blog dele e adorado, me identificado, aprendido. Mas nesse assunto eu discordo dele. A poesia é antes de tudo oral. Seja recitando em silêncio ou em voz alta, é o desdobramento da poesia no tempo que a faz acontecer. A poesia é, antes de caracteres no papel, sons na alma, e antes de sons ainda, as vivências cognitivas e afectivas do ser, e sua transmutação em sons.
O Borges tem um livro chamado Esse Ofício do Verso, que é um registro de suas palestras em Harvard, proferidas em inglês por um Borges já quase cego. Ele diz (palestra 6. pag. 103):

"Minha memória me leva de volta a uma certa tarde, coisa de sessenta anos atrás, à biblioteca de meu pai em Buenos Aires. Eu o vejo; vejo o bico de gás; poderia pôr minhas mãos nas estantes. Sei exatamente onde encontrar as Mil e Uma Noites de Burton e a Conquista do Peru de Prescott, embora a biblioteca não exista mais. Volto àquela tarde sul-americana já antiga e vejo meu pai. E o vejo nesse momento; ouço sua voz dizendo palavras que eu não compreendia, e no entanto sentia. As palavras eram de Keats, de sua "Ode to a nightingale" (Ode a um rouxinol). Tantas e tantas vezes eu a reli, como vocês, mas gostaria de repassá-la outra vez. Acho que isto talvez agrade ao fantasma de meu pai, caso ele esteja por perto.
Os versos que recordo são aqueles que vocês estão lembrando neste momento:

Thou wast not born for death, immortal Bird!
No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path 65
Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
She stood in tears amid the alien corn;"

(Tô com preguiça de pôr a tradução. A tradução não importa).

Borges continua:
"Pensava saber tudo sobre palavras, tudo sobre linguagem (de pequeno, a pessoa acha que sabe muitas coisas), mas aquelas palavras foram uma revelação para mim. Claro, eu não as entendia. Como poderia entender aqueles versos sobre pássaros - sobre animais - que eram de algum modo eternos, intemporais, porque vivam no presente? Somos mortais porque vivemos no passado e no futuro - porque lembramos um tempo em que não existíamos e antevemos um tempo em que estaremos mortos. Aqueles versos chegaram a mim através de sua música. Eu pensava que a linguagem fosse um modo de dizer as coisas, de externar queixas, de dizer que se estava feliz ou triste etc. Mas quando escutei aqueles versos (e os continuo escutando, em certo sentido, desde então), soube que a linguagem podia também ser música e paixão. E assim me foi revelada a poesia."

Não vou me extender aqui sobre a pesquisa das origens orais da poesia,e das peculiaridades da forma oral, é uma pesquisa que eu estou fazendo, mas só pra não ir muito longe o que eu quero dizer é que a escrita é um desenvolvimento posterior, e não vai aqui nenhum juízo de valor, mas minha crença que a poesia é anterior à escrita. Claro que a introdução da escrita a modifica, a transforma, e isso não é bom nem ruim, mas a palavra poesia em sua amplitude de fazer magia com as palavras, dizer palavras que abrem portais e fazem coisas com a espinha, isso vem desde a primeira palavra pensada. Existe linguagem oral? Sei lá... passo. Vou meditar... hehehe...

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A propósito, segue trecho de um artido meu intitulado "Poesia versus música":

"... Com o advento do humanismo, porém, a poesia foi passo a passo de libertando da música, passando a ser impressa. Ou seja, agora, o poeta tinha de conseguir musicalidade trabalhando a linguagem poética, sem o auxílio dos instrumentos musicais. Conseqüentemente, houve mudanças importantes na estrutura do texto poético que passou a ser feito, não mais para ser ouvido, mas lido. Por outro lado, a poesia se tornou acessível às camadas mais pobres da população. Isso tudo provocou uma revolução cujos efeitos duram até hoje.

De lá para cá, poesia e música se distanciaram cada vez mais uma da outra, cada qual se realizando dentro da sua especificidade. Porque, para muitos, a poesia é uma expressão literária por excelência e, como tal, se caracteriza única e exclusivamente pelo emprego da palavra escrita.

Falso ou verdadeiro?

Na verdade, tudo isso não passa de um argumento frágil e preconceituoso, contestado a todo instante pela prática cultural. Do contrário, como explicar manifestações artísticas como a literatura de cordel, que concilia tão bem texto e oralidade? Com certeza, a maioria dos críticos torcerá o nariz para essa constatação, decretando: “Não é literatura!”; “Poesia e música não se misturam, como água e azeite”. E a MPB, que reúne “poesias” e melodias extraordinárias? Fixemo-nos em Gil e Caetano, em Tom e Vinícius, este compondo e aquele cantando (e vice-versa), numa sintonia de dar água na boca..."

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Vou colocar outro depoimento, depois volto com minhas opiniões. Vou ter que dar uma brigadinha com o Pedro, fazer o quê? heheheehehe bricadeirinha!


Da Cronópios

LETRA DE MÚSICA É POESIA?

Por Antonio Miranda

Li por aí alguém afirmando que Chico Buarque não é poeta, é letrista. Em sentido contrário, Paulo Henriques Britto (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgavam-me por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .” É bom frisar que Paulo Henriques, além de poeta, é lingüista por formação acadêmica.

Os letristas seriam poetas “menores”, as letras constituiriam uma sub-literatura, mal comparando a arte com o artesanato?

Sei não. Ouvindo rádio e assistindo televisão, escutando tantas banalidades… Raps e pagodões maçantes, sertanejos acaramelados, axé baiano e reggae maranhense insossos, rock caseiro e hip-hops repetitivos, dá para entender o preconceito em relação às letras de músicas como poesias. Mas, por exceção, deve haver axé, reggae, pagode e sertanejo de qualidade.

Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? E que dizer do Cartola? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense (que era maranhense)? Eram sim, foram, são poetas e pronto. Caetano é um poeta!

Caberia, no entanto, em contrapartida, também afirmar que nem todas as letras de Caetano e de Chico podem ser consideradas poesia, mas apenas “letras” de música?

Alguém saiu com essa e eu não tinha uma resposta pronta, e deixo aos leitores o direito de resposta, como ao amigo o direito da dúvida. Na mesma linha de raciocínio, também seria possível afirmar que nem todos os poemas de Drummond ou de Bandeira são, em verdade, poesia. Seria admissível afirmar que alguns poemas de Fernando Pessoa seriam “menores”? Também vou escapar pela tangente…

Só queria discutir um ponto: a relação entre poesia e música no ato criativo. Há músico que faz a melodia e depois o poeta “coloca” a letra. Vinicius de Moraes teria feito isso com Tom Jobim, com Baden Powell e até com compositores clássicos. Pode ou não pode?

Em sentido contrário, o músico “musicaliza” o poema como fez Joan Manuel Serrat com os versos esplêndidos de Antonio Machado e o nosso Fagner fez com um texto de Cecília Meireles.

Tem muito a ver com o tipo de composição. Alguns músicos pautam melodias em quadraturas fixas, bitoladas, como o bolero ou o samba, levando-os á intervenção nas letras para ajustá-las, seja podando-as ou ampliando os versos. Também alguns poetas se enquadram nos compassos e ritmos assinalados. Mas alguns compositores, como Arrigo Barnabé e Tom Zé, criam livremente, sem conformar-se a ritmos da moda.

Aonde quero chegar? A lugar algum, a nenhum lugar…

Estamos falando de desafios. Vence quem tem talento, banaliza quem imita e não tem o que dizer. O que devemos julgar – se cabe algum juízo sobre a questão – é a coisa em si, o poema mesmo. Letra de música pode ser e não ser poesia.

“Luar do Sertão” é poesia com ou sem música. Tive a certeza disso, de forma empírica, quando uma amiga estrangeira, especialista em literatura, ficou impressionada com o poema, apesar de singelo. Hoje estudamos os textos de Catulo da Paixão Cearense e de Noel Rosa na academia como autênticos poemas, sem preconceitos, em dissertações e teses doutorais. Melhor ainda quando o estudioso busca a relação entre a música e o poema pois, sem dúvida, deve haver uma complementaridade (ou ampliação de sentido) entre ambos no ato da criação. A poesia, desde suas origens, sempre esteve ligada ao teatro, à música e a outras manifestações culturais.

O que dizer da inteligibilidade e da legibilidade da música e da poesia? O “intérprete” da música (pensemos em Maria Bethânia) costuma esforçar-se para que o ouvinte entenda o sentido (ou o “sentimento”) da letra da música. Pode até cantar à capela, só com a música das palavras no embalo da melodia, sem qualquer acompanhamento instrumental. O cantautor costuma valorizar sobremaneira a mensagem de suas composições tanto quanto o declamador ou o performer em um sarau ou poemashow. No entanto, muitos cantores (medíocres) não atinam para o significado das palavras que cantam e parece que o público ouve e não entende nada… e até gosta! Música sem mensagem explícita, sem significado apreensível, apesar da letra.

Em certa ocasião participei de uma gravação e o cantor não valorizava o texto da canção. Discuti com ele o sentido das palavras e ele incorporou na intenção do canto e a regravação ficou bem melhor. Mas já há poetas que também não perseguem a legibilidade dos textos e menos ainda para a sua inteligibilidade.Os textos são intencionalmente herméticos, intranscendentes, incomunicáveis. Nada em contra, tudo bem, ok, se a intenção é essa… Pior é quando o autor deseja comunicar algo e o que se ouve é sem sentido… Tem de tudo, vamos ficar por aqui.

Por último, antes que eu me esqueça, o que é mesmo poesia? Existem muitos tratados sobre o tema, é assunto para outra ocasião.

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Uns poucos conseguem fazer poesia em letra de música, sim. Assim como o contrário: alguns conseguem fazer boa música em poemas já construídos...

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Vejo que os amigos tb não têm uma resposta cabal ao difícil dilema que a Renata nos coloca. Eu colocaria outro aspecto, que apenas intuo, não estudei linguística o suficiente para explicar: a musicalidade inerente à fala.
Por exemplo: um idioma que eu desconhecia totalmente, o dutch (holandês) me parecia a mais horrível combinação de sons que uma garganta poderia emitir! Há uns "h" inspirados (e que nem são esta letra: o "g" soa "h", em ducth, e com várias entonações e variações palietais).
Pois não é que aprendi a gostar do som do dutch falado? Cantado, então, é maravilhoso (ainda que eu não entenda 10% do que cantam. Talvez não entender, não poder traduzir, seja positivo: resta-me apenas a musicalidade da fala em si).
Cito o exemplo que me toca mais de perto, mas certamente isso pode valer para todos os idiomas. O que eu quero dizer é que a fala contém música. A música sem letra, creio, veio depois, como extensão da voz humana e a criação dos instrumentos melódicos. A percussão fica fora disso, no início, embora deva ter influido por onomatopéia na própria linguagem primitiva.
Só prá corroborar minha leiga opinião: argentinos, cubanos e bolivianos acham o som do português muito "doce", sensual, agradável, do que nós mesmos achamos. Eu acho "beso" (que soa como beço) mais suave do que beijo. Mas eles não!. Calle (mais ou menos caiêê) soa-me mais suave que rua (que pronunciamos com dois "r", menos em Pomerode, onde comemos mareco con repolho roxo...rsrs).
Enfim, como gostamos de música em todas as línguas, e aqui temos uma seleção delas, o debate continua. Espero que minhas dúvidas sejam também as de outros(as) amigos(as)...

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