Verso e Prosa

Do contista e romancista Julio Cortazar (autor de "O Jogo da Amarelinha"), estabelecendo a diferença entre os dois gêneros literários:

"No combate entre um texto e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute."

PS: achei no blog do Luiz Zanin (http://blog.estadao.com.br/blog/zanin), que considero o melhor crítico de cinema do país.

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Respostas a este tópico

Este post,"Teses sobre o conto, de Ricardo Piglia" no blog O Biscoito Fino e a Massa é muito interessante. O Idelber é professor de Literatura Hispano-Americana em uma universidade americana, vez por outra publica uns artigos muito interessantes sobre literatura.

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Tá, e daí?

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Daí nada. Abri o tópico para conversamos um pouco sobre o conto e o romance e as particularidades de cada um -- e, claro, sobre literatura em geral, que é a razão de estamos aqui.

Seja bem-vindo à discussão. Um abraço.

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No Segundo Caderno dO Globo de 8 de março (domingo) tem um bate-bola interessante entre Milton Hatoum e o Mia Couto, sobro o conto. Mia Couto é romancista e contista, enquanto o romancista Hatoum acaba de estrear na narrativa curta. Infelizmente, o link só está disponível para assinantes dO Globo. À certa altura, o moçambicano diz o seguinte:

"Eu vejo com muita tristeza que se hierarquizaram os gêneros literários, e o conto é tido como um parceiro menor do romance. (...) Os contos são tidos como um degrau para se atingir aquilo que é tido como mais sério e mais literário (o romance). Estou certo que não foram os escritores que inventaram essa hierarquia."

E vcs? Concordam com essa hierarquia? Também acham que o conto é menos literário, menos importante que o romance?

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A proposta de José Rezende é tão fascinante que não pude deixar de deixar aqui um comentário, ainda que breve e despretensioso.

Essa discussão, envolvendo o conto, a novela e o romance, já é clássica na teoria literária. E Julio Cortazar, um clássico da literatura latina, ao falar da diferença entre conto e romance, foi muito feliz: “Este ganha sempre por pontos, aquele deve ganhar por nocaute”.

Realmente, por tratar de um único núcleo dramático, vamos dizer assim, a história curta deve se ater ao essencial, a fim de impactar o leitor – ou nocauteá-lo, como propunha Cortazar.

Praticado por grandes escritores, como Machado, o próprio Cortazar, Borges e Checov, o conto acabou se tornado um gênero sofisticado e bastante praticado na literatura mundial.

Por outro lado, o academicismo acabou estabelecendo uma séria de regras para a confecção do “conto perfeito”, o que acabou por torná-lo um objeto estético ao alcance de poucos...

Felizmente, o modernismo veio e revolucionou a técnica, o enredo, a visão da arte e, hoje, como bem destacou Mário de Andrade, conto é aquilo que se chama de conto...

Desde então, o conto sofreu mudanças radicais, a ponto de se limitar a um único parágrafo ou, prestem atenção, a uma única frase. Obviamente que mantendo o fio narrativo...

Por sua vez, o romance apresenta uma carga de complexidade e densidade inimagináveis num conto. Em vez de um só núcleo dramático, o romance apresenta vários, que vão se desenrolando com as peripécias dos inúmeros personagens. Esses personagens, quase sempre, se apresentam num espaço, tempo e faceta psicológica bem delineados, o que torna a narrativa romanesca mais pesada, redonda, rica, etc.

Ao contrário, por exemplo, da novela, que também apresenta muitos personagens mas cuja movimentação se evolui, numa sucessão de eventos, em direção ao final feliz... ou não.

Ah, convém destacar que critérios quantitativos, tão utilizados para classificar o conto, a novela e o romance, podem tornar ainda mais nebuloso o limite entre esses gêneros. Um conto teria número tal de páginas, a novela outro tanto e o romance, uma infinidade...

Ledo engano. Critérios qualitativos são mais seguros. O alienista, de Machado, apesar do grande número de páginas, não passa de um conto. Dom Quixote, de uma novela. E Memórias Póstumas de Brás Cubas, menor que esse, será sempre um romance, e dos bons.

No fundo, Mia Couto está corretíssimo. Em vez de hierarquizar os gêneros, devíamos lançar mão de todos os gêneros para produzir boas histórias. E até mais ver.

(A. Zarfeg)

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"Por sua vez, o romance apresenta uma carga de complexidade e densidade inimagináveis num conto. Em vez de um só núcleo dramático, o romance apresenta vários, que vão se desenrolando com as peripécias dos inúmeros personagens. Esses personagens, quase sempre, se apresentam num espaço, tempo e faceta psicológica bem delineados, o que torna a narrativa romanesca mais pesada, redonda, rica, etc."

Essa definição diz que A Náusea de Sartre é uma novela, ou talvez um conto. Ou para ir um pouco mais longe, Ulisses.
Dois romances de praticamente apenas um personagem.
Ou os livros de Morávia.
Ou que tal O Ano da Morte de Ricardo Reis de Saramago?
Não creio que a fronteira esteja no número de páginas ou na quantidade de personagens e núcleos narrativos.

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No momento em que escrevemos, não pensamos na forma e sim no alivio que vai ser prender no papel (ou no computador) a história que que nos atacou. Porque ela é terrível, foge como vem, e se escapa nunca mais nos perdoamos. Portanto, depois de presa, nos a torturamos, cortamos, acrescentamos, em busca dessa tal forma, sofisticação ou coisa que o valha. Eu defendo que não devemos nos ater a regras, escrever e escrever, e se agradar, que bom! Se não, paciência. Conto é aquele que eu chamo de conto, novela a que vem por partes, desvendado, e romance o que nos faz mergulhar, perder o fôlego e depois emergir, nunca mais igual, para a realidade.

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Eu defendo que não devemos nos ater a regras, escrever e escrever, e se agradar, que bom! Se não, paciência. Ainda bem que pensamos assim só em relação à ficção (ou poesia; literatura enfim) que produzimos. Se fosse assim em todas as outras esferas de nossas vidas, que problemão, não é?

"Ah, não devemos nos ater a regras, educar e educar os filhos, e se agradar, que bom! Se não, paciência."

"Ah, não devemos nos ater a regras, amar e amar nossos companheiros, e se agradar, que bom! Se não, paciência."

"Ah, não devemos nos ater a regras, cozinhar e cozinhar, e se agradar, que bom! Se não, paciência."

"Ah, não devemos nos ater a regras, bater o cartão e bater o cartão, e se agradar, que bom! Se não, paciência (do chefe)".


Acho que quem quer transgredir, deve antes conhecer o que se está transgredindo; e bem, para construir, estruturar, fundamentar o novo. Derrubar o estabelecido é uma obrigação! Mas tem que fazer bem feito.

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Eu me referia a essa literatura de ficção. E as regras citadas não são de ética e moral e sim de forma (tem que ter tantas linhas, obedecer um ritmo, nocautear o leitor, ser perfeitamente enquadrada, com parágrafos definidos e pontos, entre outras tantas coisas acadêmicas). Só isso (que não é pouco, mas não faz mal a ninguém).

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Acho que V também. Há um enquadramento. Se você vai romper o enquadramento, é no mínimo razoável esperar que você saiba perfeitamente o que é e como funciona o enquadramento. Para falar do que eu sei, nenhum poeta moderno relevante deixou de demonstrar que sabia fazer bem tudo o que já tinha sido feito.

A alternativa é adolescente. Imaginar que qualquer criança de 4 anos pode fazer o que Jackson Pollock fez.

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Não sei de onde vocês entenderam que eu disse que uma criança de quatro anos pode escrever o que quem quer que seja famoso tenha escrito. Não disse que todo mundo pode escrever. Disse que quem escreve (e pode), deve e pode escrever o que quiser, sem censura de regras, porque depois corta, tortura e transforma. Disse que quem escreve bem pode tudo (o que se escreve). Porque não? Disse que os acadêmicos querem prender a escrita nas formas, e quem pode (e sabe), escreve tudo o que quer. Que regras na arte é uma forma de ditadura. Que escrever bem é pra quem pode, porque é um dom. Quem não pode, deve se ater às regras, pra não errar. Deve revisar e olhar o dicionário, a gramática, consultar o editor e tal. Mas quem pode, pode, e quem não pode tem mesmo é que se sacudir.

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E aí eu concordo com tudo - e eu não disse que você disse o que você disse que eu disse que você disse (aha!). Estava só clarificando que o enquadramento, as regras, a ditadura que seja, esta aí como uma estrada. Sair da estrada e andar pelos campos não é simples, é na verdade bem mais complicado que dirigir pelo asfalto. Que é o que você disse agora.

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