São Paulo é o recanto mais reacionário do Brasil, embora a semeadura da arrogância, a retórica da “locomotiva do Brasil” e da “metrópole que mais cresce no mundo” comecem a deslanchar ante a inexorável realidade. Em um livro muito interessante, intitulado de “Orfeu Extático na Metrópole”, de Nicolau Sevcenko, conta essa história e localiza o momento em que a terra das grandes greves organizadas pelos anarquistas e pelos socialistas sucumbiu diante da prepotência dos senhores do café e da indústria nascente no inicio dos anos 20.
São Paulo é feia, cada vez mais feia, e monstruosamente desigual. O atual prefeito Kassab é incrivelmente incompetente, ora esmera-se em tirar os postes da Oscar Freire, a rua das grifes, ou de refazer as calçadas da Avenida Paulista; ora divaga em outros projetos não menos desvairados, enquanto a periferia, e até áreas menos plebéias, não têm esgoto e galerias de águas pluviais. Sem contar a presença avassaladora de um esgoto ao ar livre representado pelos rios Pinheiros e Tietê.
Acontece que os donos do poder paulistano cuidaram de racionar os espaços públicos até a penúria absoluta. Houve tempo em que os habitantes iam ao aeroporto de Congonhas e, deleitados, entregavam-se à sublime diversão proporcionada por aviões que pousam e levantam vôo. Hoje vão aos shoppings, movidos pela sanha consumista, ignaros e manipulados, a desconhecerem a importância da praça onde o povo discute e enfrenta os problemas coletivos.
E, enquanto isso, os senhores paulistas, cheios de empáfia provinciana na exposição de falsos refinamentos freqüentam a Daslu e a Expand, reúnem-se em happy hours glamurosos pelos restaurantes de uma ridícula “capital gastronômica do mundo” onde é muito difícil comer bem, e pronunciam frases feitas, lugares comuns e banalidades, aprendidos na leitura dos insuportáveis jornalões: Estadão, Folha, JB, Veja e Caras.
São Paulo nunca esteve tão ruim para viver. O Metrô, cada vez mais lotado, assemelha-se a um carro de boi, lotado, lento, inoperante. As linhas de ônibus sofreram diminuição a olhos vistos, regredimos em 20 anos, na questão dos transportes públicos. Se apela para os carros, perde-se horas e horas num trânsito infernal.
E os dois governos, Serra e Kassab, não são chamados às falas; não dão explicações para a população. Quem vive no centro e nos bairros, sabe que a vida tem piorado muito nesses últimos anos. O centro parece cenário de guerra, com moradores de rua disputando as calcadas com trabalhadores, mendigos por todo o lado. E a feiúra da cidade, poluída, como pano de fundo. É o horror!
Talvez o paulistano pudesse ter esperança em novos quadros políticos, porém o PT não tem pernas para enfrentar o tucanato, alojado em SP há mais de16 anos. São Paulo padece em termos de representação política a qual só se iguala termos de representação com os cariocas.
A mediocridade está dominando esta terra, com participação destacada de boa parte de seus ricos, jecas com pose de cosmopolita, moderninhos só na pose e na arrogância, porém completos ignorantes, sócio-político-cultural e intelectual. Elitezinha preconceituosa e reacionária, com valores do século 19 querendo criar uma espécie de "paulocentrismo", com apoio damaior parte da mídia.
É São Paulo é complicado. É o gauche do Brasil!
São Paulo é o estado brasileiro onde mais se desenvolveu o ethos do mercado, do individualismo, a esfera privada em detrimento da pública, em uma palavra, o americanismo. Até aí não teria problema nenhum. A questão é o contraste deste ethos privatista com o ethos do restante do país, mais público, mais estatal, herança da colonização lusitana. O contraste é tamanho que figuras importantes do pensamento social uspiano desejariam fortemente que o Brasil tivesse sido colonizado por anglo-saxões, germânicos ou francos. Não suportam e não entendem o nosso iberismo.
Uma parcela significativa desse povo está cada vez mais reacionária e alienada. Só se houve coisas do tipo: "a justiça deveria ser mais rigorosa" (com os pobres). Os motoristas de automóveis, arrogantes e apressados, acham que a calçada é uma extensão das ruas, muitas vezes se tem de dar socos na lataria para fazer-lhes vê que os pedestres são prioridade nas calçadas.
Cada vez mais as pessoas ostentam seu luxo e ao mesmo tempo vivem com medo das crianças desassistidas pelo governo e prefeitura. Sofismam ou calam sobre os incompetentes Serra e Kassab.
São Paulo está um lixo de idéias e de civilidade!...
Este provincianismo não existe apenas na Capital, mas em outras cidades paulistas do interior também, mas creio que sempre, em todo lugar, há mentes mais abertas e desprovidas de preconceitos, inclusive na elite paulistana.
Ao largo desta elitizinha de quinta categoria, tem gente de primeira em São Paulo. Nem todo paulistano é reacionário, obtuso, babaca, constrangedoramente provinciano, feudal e cafona. Pode ser difícil acreditar, mas há vida inteligente no planeta Sampa. Tem até quem deteste atavicamente o Zé “chirico” Serra, com aquela aura e “pose de vampiro”, de cara de tartaruga fora do casco.
A semente dos sindicalistas (especialmente os anarquistas) das primeiras décadas do século XX não está totalmente dissipada da memória da grande urbe, encontra-se latente e quase imperceptível em seu inconsciente coletivo, na vontade de participar das grandes decisões que impactam suas vidas, vontade essa tão castigada durante o último século pela opressão física, social, econômica e psicológica, bem como pela contra-educação política que foi tornando o paulista obtuso, arrogante e alienado.
Mas, as flores haverão de florir para os paulistanos, o vento não para, as sementes continuam voando, mesmo através de oceanos e, em São Paulo já se pode observar uma tímida chuva!...