Verso e Prosa

Esta é uma discussão que pode render bons frutos para todos nós, leitores ou escritores (ou leitores E escritores). Em primeiro lugar, parabéns ao Rafael, ganhador do meu livro de estréia ("A Mulher-Gorila e outros demônios") e um muito obrigado a todos os participantes do sorteio da semana passada. Aproveito o ensejo para colocar a seguinte questão: numa comunidade de 336 leitores e/ou escritores -- como é a nossa -- apenas 16 se interessaram pelo livro, e se animaram com a possibilidade de ganhá-lo. Ou seja: 320 não o quiseram nem de graça, mesmo sem saber se é bom ou ruim.

Desconfio que isso se deva ao fato de o autor (este que vos fala) ser pouco conhecido. Sendo assim, pergunto, pois: 1) Quais os critérios que nós, leitores, usamos para decidir se vamos ou não ler um livro cujo autor não conhecemos? É o boca-a-boca? São os cadernos de cultura dos grandes jornais? É a orelha do livro? É a lista da Veja? (argh! te arrenego! vade retro, trem ruim!) 2) O que nós, escritores, podemos fazer -- e fazemos -- para que nossas obras sejam lidas? Aqueles que têm livro(s) publicado(s) poderiam contar suas experiências aqui.

Acho que a troca de opiniões sobre o tema pode trazer boas idéias para todos nós. Vamos nessa? Se este tópico vingar, mais tarde eu conto a emoiconante saga dA Mulher-Gorila em busca do leitor perdido.

abç

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Respostas a este tópico

JRJ:

Continuo esperando seu comentário sobre “A cachaça filosófica”. Quanto ao sorteio do seu livro, também acho que a participação foi muito pequena. E isso se deu por “n” fatores, como os aventados por você: autor pouco conhecido, a falta de recomendação dos cadernos 2 dos grandes periódicos, etc. No entanto, eu quero amenizar o pouco interesse da comunidade, citando o meu exemplo.

Inicialmente, fiquei na dúvida se iria me registrar para o sorteio. Aliás, isso aconteceu também no caso do livro de crônicas do Nassif (que continuo interessado em ler). No seu caso, JRJ, resolvi me inscrever apesar de não alimentar muita esperança de levar o brinde. Nesse ínterim, porém, a curiosidade me levou a seu site e, de lá, saí com e-book na íntegra. Acredito que outros não se arriscaram pelos mesmos motivos ou razões similares.

Por outro lado, se a pergunta fosse: Quem gostaria de ler o livro de contos “A Mulher-Gorila e outros demônios”, do JRJ? A resposta seria bem mais expressiva, com certeza. Até por causa do título...

Mas o fato é que, no Brasil, os leitores sempre foram arredios, mesmo. Existem muitas explicações para essa atávica falta de interesse, passando pela deficiência do ensino público, pelo preço dos livros e, sobretudo, pelo comodismo do leitor, que ainda prefere assistir à tevê ou torrar seu dinheirinho com farras nos finais de semana.

Eu também publiquei alguma coisa e, de fato, meus leitores podem ser contados nos dedos (das mãos). Já vivenciei o absurdo de passar um livro autografado a um amigo (supostamente leitor), já desconfiado de que ele não se daria ao trabalho de abrir o dito-cujo depois. Trata-se de uma constatação triste, decepcionante, mas verdadeira. Infelizmente.

(A. Zarfeg)

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Meus prezados, já notaram quantos leitores temos nesta comunidade? Temos escritores, poetas, pintores, músicos, multimídias e etc., porém poucos são os leitores.
Tenho um conto publicado, postei-o aqui e mais um outro também, ninguém leu.
Perdi o seu sorteio pois me uni a vocês após o evento, (gostei do nome).
Li a cachaça filosófica, muito bom, porém não postei comentário.(me desculpe)
Stephen King já disse que se publicasse a sua lista da lavanderia, venderia um milhão de exemplares, mas é o Stephen King, nós somos desconhecidos até mesmo nesta comunidade.
Em tempo, comprei um livro de Cassiano Ricardo em um sebo, com decicatória e um verso do próprio punho na capa,tem cabimento?

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José Resende:

Não se impressione com o fato de apenas 16, dos 336 leitores, terem participado do sorteio e não se preocupe com o fato de que os demais não quiseram sua obra nem mesmo de graça. Isso não quer dizer que seu texto tenha maior ou menor valor. O máximo que se pode afirmar é que você não ingressou naquilo que se conhece como cultura de consumo. No fundo, isso é maravilhoso, torna-o especial. O fato é que, quando a quantidade de leitores é pouca, a qualidade geralmente é muita - tenha certeza disso, muita certeza!

Também escrevo, e muito, desde minha tenra idade, ainda quando criança. De certo modo, posso dizer, foi o que aprendi e consigo fazer na vida. Bem ou mal, consigo escrever. Poucos me lêem, se é que me lêem, percebo isso. Se me lêem, muitos, com certeza, sem aprovar-me, quase não mereço comentários. O que não posso é deixar de escrever, negar o que está dentro de mim, o que se traduz em minha compulsão pela vida e deixar de sentir-me feliz, ainda que só consiga produzir textos sem importância. Meu ingresso em Prosa e Verso, sem dúvida, foi uma iniciativa ousada para mim, até hoje não a assimilei completamente. Todavia, não há como desistir dela, interrompê-la, se depender de minha iniciativa.

Digo-lhe tudo isso, porque o talento não aceita o pessimismo e não pode ser descontinuado. O indivíduo tem apenas a aptidão e o talento é o que ele constrói. O talento é como a liberdade, o que não pode ser uma concessão, mas, unica e exclusivamente, uma conquista. Ninguém abandona uma conquista ou se queixa dela, nem eu com meus absurdos.

Há um detalhe colocado por Zarfeg: que, "[...] no Brasil, os leitores sempre foram arredios [...]", predominando, entre eles, "[...] uma atávica falta de interesse [...]". Menciona, também, a baixa qualidade das escolas, os preços dos livros, o comodismo dos leitores etc. Esqueceu-se o bom Zarfeg de um detalhe importante: a cultura brasileira é marcada, em sua essência, pela oralidade e pela canção. É bem diferente do que ocorre com a Europa e suas ramificações bem sucedidas no resto do mundo. Enquanto por lá a cultura é letrada, aqui, é oralizada e musicalizada. O texto escrito, no Brasil, tem mais uma função meramente utilitária. Lá escrevem, aqui contam, cantam e dançam. Isso, mais do que engrandecer, singulariza a brasilidade. Ainda que eu nem saiba reproduzir os ritmos, os remelexos e rebolados tão próprios da gente brasileira, nem escreva como o tais cordelistas (que os intelectos e acadêmicos nacionais exclui, de forma tão cruel e injusta, dos estudos regulares sobre literatura brasileira), nem imagina como tenho orgulho de ser e sentir-me parte dessa gente, desse povo, de estar eles!

Ainda tenho na memória o excelente texto "Cachaça filosófica", do Zarfeg. Deixei até meu comentário, embora, pelo que percebo, não seja lá bom em comentários.

Desculpe-me por ter-lhe tomado espaço e escrito talvez coisas não lá muito plausíveis, talvez bobagens... Pretendi dizer algo válido, vamos dizer assim. Se fracassei, valeu a tentativa e perdoe-me não ter sido melhor!

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Rezende,

Infelizmente não estava presente aqui na oportunidade do sorteio do seu livro, se estivesse seria o décimo sétimo.
Bom, mas vamos lá aos motivos dessa resenha que muito me é curiosa.
Sobre os critérios utilizados para decidir por uma leitura:
Eu penso que a cama precede a fama. Eu explico, da mesma forma em que damos duro para realizar algum projeto de vida, e um livro é sem duvida um grande projeto, temos que dedicar o mesmo esforço para divulgá-lo e vencer as barreiras. Nós seres humanos, bipolares, utilizadores de poucos porcentos de nossa cabeça animal, só reagimos por estímulo. Sem duvida, a propaganda é a arma do negócio e a persistência a sua munição. O boca-a-boca é sem dúvida a maior e mais eficiente forma de divulgação de qualquer coisa, boa ou ruim. Como o Zarfeg comentou sobre ter dado um exemplar autografado a um amigo sem acreditar que o mesmo o leria... talvez ao inves de presentear o amigo com o livro, ele tivesse comentado algumas das histórias ou passagens de seu livro, sem mesmo mencionar de que tais passagens fizessem parte de seu livro, não poderia ser uma espécie de test-drive de interrese? Talvez isso pudesse ajudá-lo a identificar quais os pontos atrativos da sua obra, ou entender como as pessoas reagiriam a uma de suas histórias. Eu trabalho na área de tecnologia e passo os dias vendendo idéias (algumas boas outras nem tanto), a escrita pra mim é um prazer e uma necessidade que vem mudando a minha vida, até a pouco tempo sem muito sentido fora do trabalho. Tenho pretensão de escrever um livro e já começei, vai demorar, mas enfim começei e vou passar e sentir tudo o que voce está sentindo agora, mas como um vendedor de idéias, eu posso lhe garantir, que persistir é a chave do sucesso. A repetição de algumas ações são fundamentais.
Começa, por não ficar calado quando um resultado não acontece. Temos que nos mexer.
O fato de voce lançar esse tópico, quando apenas 16 de 336, participaram do sorteio do seu livro, questionando e trocando ideias, é uma verdadeira análise de feed-back para medir a eficácia de uma ação tomada. (sendo massacrantemente tecnocrata me valendo de termos de um mundo que sempre que posso tento fugir), mas guardada as devidas proporções, vale pra nossa resenha também.
Falar de seu livro, comentar passagens dele, divulgá-lo na nossa comunidade, em outras, no cabeçalho de seu msn, yahoo e coisas do genero, trocar ideias sobre o livro, nem que seja com um unico leitor que seja, é assim que se começa uma história de sucesso. O que cai do céu é chuva, sucesso não, esse é resultado de repetição, aprendendo, percebendo e adaptando o que não vai de encontro com suas expectativas.
Escrever e ler andam em conjunto, mas como tudo que é humano, precisa de estímulo e algo em troca, o simples fato de'u estar escrevendo aqui num tópico lançado por voce sobre um livro seu e pelo fato de voce já ter respondido sobre topicos que eu lançei e comentado textos que escrevi, me deixa muito motivado a ler seu livro, o que farei, seguindo o dica de Zarfeg de ir ao seu site e baixar o e-book.
Viu? é troca, voce dá, sem interesse de nada em troca e a coisa volta pra voce como um benefício.

Eu penso que assim como em qualquer mercado (tecnológico ou não), nossas experiências sempre ajudam de uma certa forma. Ainda não escrevi nenhum livro e nunca publiquei nada, mas essa é a forma que penso que posso contribuir. Vamos torcer para que alguem com essa experiencia possa nos dizer mais, nessa resenha que, concordando contigo, é muito rica pra todos nós.

Um grande abraço e nos falamos em breve.

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O boca-a-boca (a reforma aí e eu nem sei se escrevo certo) é uma forma boa e eficaz. as redes - overmundo, aqui no verso&prosa, blogs, etc...também divulgam. a crítica na mpidia escrita não me pega tanto quanto já aconteceu na época dos bons cadernos culturais dos jornais.
Penso que as livrarias que oferecem lounges onde posso folhear os livros tomando um café, uma boa cerveja também ajudam.
ABRAÇOS
cd

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Mil desculpas pela longa ausência. Mas, continuando a discussão, costumo me valer de várias fontes para decidir que livros comprar. Ainda não desisti por completo dos jornais e revistas -- tirante a Veja, por questões óbvias, gosto de dar uma olhada nos cadernos culturais e nas seções de livros (mas não confio piamente no que dizem os resenhistas). O boca-boca também é uma poderosa ferramenta. Mas a prova dos nove é mesmo uma ida à livraria. Adoro ler orelhas e contracapas -- e é aí que costumo decidir se levo ou não levo. Um bate-papo com o livreiro também é de lei. Aliás, devo aos livreiros, e a um livreiro em particular -- Lourenço Flores, da finada Esquina da Palavra -- a boa divulgação e vendagem do meu livro de estréia. Lourenço gostou tanto que passou a indicá-lo aos clientes, chegando mesmo a ler trechos em voz alta. Se funcionou para o escritor José Rezende Jr., deve funcionar também para o leitor José Rezende Jr. -- por isso, sempre ouço com atenção as dicas dos bons livreiros.

abçs

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