
Nossas casas morreram cedo.
Mas nós ainda
estamos aqui
lembrando delas. Nós morremos cada vez mais velhos, mas nossas casas morrem cedo demais. A casa da minha infância, na Vila Itambé, é a única que não desapareceu do mapa. Mas ela está tão desfigurada como essas mulheres que fazem cirurgia plástica, pensando que a beleza é algo que se compra. Ou se compara. A beleza não é mercadoria, nem artigo de luxo. Ou produto do lixo. Embora possa ser tudo isso também. Suponho ser esta a razão pela qual um castelo seja algo tão inconsistente para mim e uma choupana seja uma coisa tão enraizada e bela. Afinal, a casa imaginária e a casa da lembrança não foram construídas sobre o mesmo chão apaziguado? Ou sobre a cripta da casa onírica?
A casa da minha segunda infância, na Cristiano Viana, em Pinheiros, não existe mais. No mundo real, é claro. Mas na minha lembrança ela está lá, debaixo daquele prédio, sob a luz do sol do meio dia, com seu muro esbranquiçado, seu portão de ferro, seu pequeno jardim. E um imenso quintal com pombos que ainda insistem em arrulhar e voar. Mas a placa com o número 104 já desapareceu. Como desapareceram os primos e os amigos. Mas ela existe. E eu consigo vê-la, intacta, na fronteira desses dois mundos.
A casa da minha adolescência, na Nove de Julho, também desapareceu do mapa. Mas não desapareceram as coisas acontecidas ali: os sons do piano, as conversas na cozinha, o ruído das gavetas perfumadas, a beleza da louça na cristaleira, o cheiro da carne assando na panela, a Ziza, a vó Elisa, a Neuza. Não desapareceram também os murmúrios --reais e irreais -- as venezianas em dias de chuva, o jogo de poquer, o som de João Gilberto na vitrola --e as impressões cósmicas de estar vivendo o primeiro amor. Aliás, quem esquece a primeira namorada, esse ser que nos provoca uma espécie de veneração religiosa, e torna o mundo um lugar absolutamente perfeito para habitar e viver.
Depois da Nove de Julho, fomos morar na avenida Rebouças, na casa onde haviam morado meus avós e meus tios. Dessa casa também não sobram nem vestígios: fizeram um enorme posto de gasolina e até o seu entorno foi completamente alterado. Mas quando eu passo por ali, nunca deixo de ver todos os lugares de repouso e paz. Nem me esqueço dos aposentos claros, da jaboticabeira no fundo do quintal, das namoradas que foram surgindo e da poesia que foi me conduzindo cada vez mais na direção do aberto. Claro que todas essas coisas podem não significar nada. Mas essas lembranças me deixam muito comovido. Talvez pelo simples fato delas serem imagens de uma felicidade perdida. Não que eu me sinta, hoje, infeliz. Afinal, tudo é travessia--como mostra tão bem o nosso amado Guimarães Rosa. E novas ruas e novos jardins serão percorridos. Novas casas serão habitadas. E é absolutamente certo confiar na vida e nesses espaços mágicos onde as coisas são sempre assim: banhadas por uma luz antiga que parece ter acabado de nascer.
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Concordo contigo...respostas aqui são dificeis, mas na realidade a emigração francesa foi na realidade algo de muito intenso...fiz (um pouco) parte dessa mesma...
Beijinho e tudo de bom.
SALVE JORGE!!!
Beijnho para ti
Cidália
Um lindo Documentário e tambem belo cenário entre as gaivotas a Beira do mar .
Abraços
Erondina
É muito bom estar aqui com vcs.
Abraço,
Valéria.
abraços!...
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