
Caminho lentamente pela rua
envolta em teu aroma tão impregnado em mim
como se fosse o meu próprio.
Ainda quase ouço o bater compassado do teu coração soando uma cantiga de ninar enquanto adormecia
sobre teu peito.
Teu mistério de homem não me assusta
eu o conheço pelo menino que transparece no olhar
que me faz transparente.
E meu mistério de mulher
se transforma na menina
que com a mão enlaçada na tua
corre pelos jardins do casarão
colhendo frutos e passados.
E te ama,
e te amo porque abro minhas defesas
sem estar vulnerável.
Porque te dou minha vida sem perde-la.
E te amo porque descobri que a loucura da paixão
é mais efêmera que a do amor.
É preciso amar sem perder o ar.
E sorver o aroma da vida
saboreando-o intensamente
porque juntos somos grandes e livres
O minúsculo jardim, da minúscula cidade.
De pessoas de minúsculos limites.
É redondo e cheio de bancos.
Só a louca rompe dia a dia
seu próprio cotidiano.
Com inigualável inelegância
senta-se ali, ora com os cotovelos nos joelhos
ora brincando com os dedos do pé.
Seus olhos enormes, quase escapam às órbitas
em rodamoinhos azulados.
Seu enorme nariz adunco roça faceiramente os lábios.
Seu riso quase puro
derrama a sonoridade
de uma canção acidental.
Mas de sua figura engraçada
emana uma estranha força de personalidade segura e feliz
de quem se retirou de uma agonizante realidade
e criou de si mesma uma fascinante
vida de doidices.
E foi aí que percebi
a origem de sua insanidade:
Em seu tempo
Ela apenas não se enquadrara
à pequenez daquele minúsculo mundo.
(nov. 85)
Hoje, por acaso um sábado. E porque hoje é sábado, todas as janelas estão acesas. Janelas, estrelas do meu céu particular. Adoro esse meu sampa neura. Mas, estivesse na praia andando na areia e olhando o céu claro de estrelas, estaria vendo a própria poesia. Aqui não. Aqui eu procuro a poesia, aqui eu invento, e ela esta lá fora nas janelas acesas. Está aqui dentro nesse meu mundo povoado por duendes e ciclopes. Lá fora está cheio de noite. Olho as janelas com os olhos quase escondidos entre as pálpebras, e num instante elas se transformam em milhares de estrelas, com muito mais do que na praia. Na rua passam os sacis e as fadas e nos céus Pegasos viaja com suas enormes asas, fazendo malabarismos quando me vê. Bebo a cerveja em grandes goles, que descem pelo meu corpo como uma transfusão de sangue.
Hoje sou Terpsicore e danço com os pés descalços sobre as minhas janelas-estrelas. Ao redor dançam faunos. E meu hoje amado Pan, querendo estar só, tira notas vibrantes de seus pincéis-flauta. Meus pés deslizam, e nessa minha dança te escrevo me contando. O feitiço está no ar em grandes rolos de fumaça. Parece que se misturam poções diferentes, que traem a feitiçaria. Transformando o mortal veneno em doce elixir.
O tempo se rompe. Ouço música renascentista e buzina de carros. E meus faunos, são tão grandemente amados que se faz um grande silencio e quase fico só.
Às vezes somos estrelas, outras o buraco negro, não é difícil ser o buraco negro, É só saber onde está a luz. E assim ele diz: Da-me luz, que te dou sombra. A noite se vai rapidamente, escorre como água em minhas mãos. As estrelas foram se apagando, uma a uma, sem que eu ao menos percebesse. E todos que habitavam minha noite começam a empalidecer. Dois homens ainda falam da máquina do tempo e das virgens que eram devoradas por mosquitos. O velho Gato Felix, que ainda há pouco havia surgido, esconde-se nas costas do menino que o invocara, lembrando do tempo em que era ainda mais menino.
A noite passou como um prelúdio e todas as imagens partem levadas em seu manto macio. O dia surge, a música muda, um cheiro de fruta e café se espalha pelo ar. Eu me encolho em um canto pensando seriamente em propor ao sol um duelo, mas por puro comodismo desisto, quando penso nas milhares espadas de luz que possui e lembro que não tenho ao menos um único raio de aço para combate-lo. Mas sei que posso, com astúcia vence-lo. Fecho então os olhos e adormeço. Rapidamente a noite retorna trazendo de volta minhas estrelas, meus faunos, Pegasos e ainda outros mais que em mim povoaram.
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