DARKNESS
Marcilio Medeiros
sempre há uma brecha
raios a decepar flores
a nudez das cores reservadas
estiletes eretos na raspagem
da poeira que se esconde
e repousa na limitada
decomposição que lhe resta
as dobras dos móveis
sua carapaça, seu secreto
labirinto onde maturam
os dias passados em objetos
um sopro, uma falha
traz o arpão incendiado
a gralha silenciosa, mas munida
a riscar o olhar assustado
de coisas mal-dormidas
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 1 agosto 2009 às 22:13 —
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INVERNO
Marcilio Medeiros
o sol
seguiu afastável
barco em silêncio
mirado
o inverno terei de bebê-lo
dilui os cabelos
até os ossos
único sopro vivido
na morte
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 28 fevereiro 2009 às 20:01 —
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intensa de vapores
de calores intangíveis
transpões os ombros
da terra submissa
pastilha solvente
dilaceramento que se recompõe
em magnitude
ácida laranja
raios que espetam
o tenro recôndito
da carne
hoje é dia de abrires
as asas da tua inteireza
oh lua grávida de si mesma!
terminas
ressurges
serva da própria amplitude
Marcilio Medeiros Continuar
Adicionado por Marcilio Medeiros em 23 novembro 2008 às 16:44 —
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BORBOLETA
Marcilio Medeiros
uma borboleta na chuva aceita o perigo
de molhar as alvas asas de celulose
pela emoção insistente de recompor a beleza
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 12 setembro 2008 às 23:00 —
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OFÍCIO
Marcilio Medeiros
Do caos grávido
de matéria vária
retiro o lenho o linho
que serve a este ofício
Disponho-os na ordem
a que me presto
agulhando o vazio
uma dança um descompasso
O desejo entreteceu a macieza
destas fibras ásperas
tessitura desta veste
que te cobre e me desnuda
…
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 5 setembro 2008 às 22:49 —
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CHAMADO
Marcilio Medeiros
Como hei de chamar-te?
Arremessando teu nome
o sem-número de vezes
de cravá-lo na história?
Ou responderás
aos meus lábios
movendo-se sem som?
Terei, optando pela calada,
de fechar a cela
esquecer as chaves
e deixar o corpo latejando?
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 16 agosto 2008 às 22:00 —
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PARTIDA
Marcilio Medeiros
Morte
não me trazes
como antes
não me cabe
o teu estreito ventre.
Morte
não me convences
não balbucio
o teu silêncio.
Rompeu-se o brilho
do cristal coagulado
a música dolorosa
do teu cravo
do tempo
em que te persegui
doente.
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 10 agosto 2008 às 20:46 —
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ESSENCIAL
Marcilio Medeiros
O cinzel buscará o corpo
e mãos mais persistentes
que a pedra
recortarão os contornos
bruscos da matéria
e permanecerá
o que é somente forma.
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 8 agosto 2008 às 3:30 —
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RECIFE REVISITADA
Marcilio Medeiros
Dos arrecifes, em que começo e acabo
e recomponho a trama da carne
crepitam as setas que matam e glorificam
espelho, confissão e segredo
aurora e sol a derreter-se
em dias passados
Distante, olho-te dentro
ruas, pontes, álbum de fotografias
do que passo e permaneço
A placa de água morena
do rio embriagado e bebido
possui meu nome em naufrágio
alcunha derramada e salgada
de camarão e mar que se arrebenta
e se recolhe na barreira coralínea qu…
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 6 agosto 2008 às 21:55 —
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CERCA
Marcilio Medeiros
Seguia:
braço atravessando figuras
olhos afundando na paisagem mole
de cais que se sucediam
joelhos dobrando-se no fervor
de devoções imprevistas
arquear da língua
presta no mergulho
de vastos líquidos
o que era somente palpitação
e lampejo.
Ou dizer:
fogo puríssimo erguendo-se.
Ora, essa direção de pó
repercute em tropeço e susto
o que significa:
corpo esgarçado
entre farpas da cerca.
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 6 agosto 2008 às 0:54 —
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MOVIMENTO
Só me encontro quando parto, quando deixo
de mim o que está certo, o espelho em que me vejo.
Só chego a mim no caminho, no lufar das velas
que desprendem barcos em ondas despertas.
Só me contemplo inteiro no reflexo difuso
e conheço o nome na flecha em movimento.
Só creio amplo o que é mesclado, impuro
e sinto a concretude da carne no pressentimento.
Marcilio Medeiros
Mais em:
Vida Literária…
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 24 julho 2008 às 15:30 —
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DIÁLOGO
Apodera-te do recurso
a este diálogo único:
capturar a palavra
que digo com a minha boca
colada à tua
e saboreá-la comigo.
Marcilio Medeiros
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 20 julho 2008 às 22:30 —
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REFLEXO
Olho o mar que é meu, distante
e o mar em mim contempla o outro
igualmente arisco, desperto em simetria
e a possibilidade que em mim se esticaria
reside no arquear rebelde do afago morto
que se revolve em volta de si neste instante
Há avanço retrocesso no pulsar da fome
em dirigir-se ao entrelaçar da cópula
em reter-se à praia cru do contemplamento
Como prender na respiração o que é vento
ou conduzir na água o que é nódoa
da onda que não ousa dizer o nome?
Marcilio Med…
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Adicionado por Marcilio Medeiros em 16 julho 2008 às 17:30 —
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